terça-feira, 03 de novembro

Rotas, encontros e perspectivas…

Por Marco Amarelo Konopacki – Coletivo Soylocoporti

Sábado, dia 31 de outubro, 7 horas da manhã. Pé na estrada com uma missão: chegar até Cananéia, litoral paulista, visitando os pontos de cultura, divulgando o Festival de Cultura do Paraná e entregando cópias do documentário da amiga Lia Marchi aos mestres fandangueiros de Cananéia. Até seria uma viagem “comum”, se não fosse feita de bicicleta, sozinho e durante os poucos três dias do feriado prolongado. Nessas horas, é interessante refletirmos sobre o tempo das coisas e o quanto ele impacta a forma que olhamos para o mundo.

Bicicleta na primeira parada no pedágio

Bicicleta na primeira parada no pedágio

Saí de casa muito empolgado com o sol que há tempos não chegava com tanta intensidade na cidade chuvosa de Curitiba. Pedalei até a BR-277 que iria me levar até Paranaguá. Ao ganhar a estrada, uma euforia tomou todo meu corpo, comecei a cantar e parece que minhas pernas ganharam mais força para pedalar. Às 9 horas eu já estava no pedágio, havia percorrido 30 quilômetros e iniciava o trecho da serra. O esforço para chegar até lá foi agraciado por uma deliciosa descida de 15 quilômetros a uma velocidade média de 50 km/h. Não fosse o desrespeito de alguns carros e ônibus (percebi um boicote sistemático dos ônibus da companhia Graciosa que parecem ter o prazer de amendrontar os ciclistas que descem de bicicleta para o litoral), a descida seria mais tranquila ainda. Ao vencer a serra, tinha a minha frente mais 40 quilômetros de puro esforço até a chegada a Paranaguá, meu primeiro ponto de parada. Durante o percurso, encontrei moradores que também trafegam de bicicleta por essa região. Um deles pedalou uns 3 quilômetros ao meu lado e pudemos conversar por algum tempo. Muito cansado, com o vento batendo contra meu peito (ao qual não sabia se agradecia por me refrescar ou se amaldiçoava por duplicar meu esforço para pedalar), cheguei à cidade mais antiga do Paraná: Paranaguá.

De lá, segui direto para a Ilha dos Valadares onde iria visitar o ponto de cultura Casa de Fandango da Associação

Aorélio Domingues em sua oficina mostrando um molde de viola fandagueira

Aorélio Domingues em sua oficina mostrando um molde de viola fandagueira

Cultural Mandicuera. Ao chegar, exausto, sentei um pouco e bebi muita água. Achei que não poderia encontrar o jovem mestre fandagueiro e coodenador do ponto de cultura Aorélio Domingues. Foi quando ele retornou das compras e pude conversar durante uns dez minutos. Contou-me sobre como estavam as atividades do ponto e os preparativos para a grande festa de natal, assim como para a folia de reis, quando as bandeiras da Santíssima Trindade e do Divino Espirito Santo sairão para visitar as casas dos caiçaras da região. Entreguei alguns cartazes do Festival de Cultura do Paraná e saí correndo pedindo desculpas pela pressa na visita. Meu barco para Guaraqueçaba sairia dali quinze minutos do porto que fica do outro lado da Ilha dos Valadares.

Fiz um grande esforço para chegar no horário do barco, tendo chegado cinco minutos antes das duas horas da tarde. Contudo, o barco acabara de sair com o pretexto de que já estava lotado e por isso partiu mais cedo. Desolado, achei que a minha viagem começara a ser sabotada. Perguntei a um moço que vendia mexiricas se havia alguma outra alternativa. Ele perguntou para meia dúzia de pessoas e falou que havia uma possibilidade de conseguir carona num barco que iria retornar para Guaraqueçaba com um time juvenil de futsal. Agarrei-me nessa chance e embarquei com o time num barco pequeno, mas bem confortável. Neste barco conheci Dico, morador de Guaraqueçaba, agente de saúde e apoiador geral das atividades comunitárias da cidade nas horas vagas. Conversamos bastante, eu, ele e Vera que também era agente de saúde só que em Shangri-lá (praia de Pontal do Paraná). Contaram-me da vida difícil que levam,  mas da gratidão por estar numa profissão tão altruísta, a qual lhes satisfazia muito.

Ao chegarmos em Guaraqueçaba, percebi que havia ganho uma carona que salvou parte dos meus só R$55,00 com os quais viajava. Sim, além do desafio de estar viajando nas condições que citei, ainda quis relembrar os velhos tempos e viajar com pouquíssimo dinheiro para me por mais um desafio (alguém lembra da nossa viagem à Bahia com R$200,00?). Na verdade, eu estava totalmente sem dinheiro para fazer essa viagem, mas um dia antes de partir refleti que o dinheiro não podia me impedir de realizar aquilo que quero muito. E eu queria muito fazer essa viagem, a falta de dinheiro foi só um desafio a mais dos tantos desafios que existem em realizar uma viagem como essa.

Leonildo Pereira em frente a sua casa que integra o circuito museu vivo do fandango. Nesta casa é onde ele tem suas ferramentas e fabrica seus instrumentos

Leonildo Pereira em frente a sua casa que integra o circuito museu vivo do fandango. Nesta casa é onde ele tem suas ferramentas e fabrica seus instrumentos

Aportando, fui direto procurar onde estava acontecendo a conferência municipal de cultura. Com a ajuda de Dico, descobri que estava acontecendo no campus avançado da PUC/PR. Chegando lá, tive a satisfação de encontrar muitas personalidades da região, como o caso de José Muniz (bonequeiro do ponto de cultura Casa de Fandango de Guaraqueçaba) e o mestre Leonildo Pereira (rabequeiro e tocador de bailes fandango daquela região). Ao encerrar a conferência, fui logo me apresentando para o José Muniz, o qual ainda não conhecia pessoalmente. Como o Soylocopoti já havia visitado o ponto de cultura em atividade do Pontão Kuai Tema, fui muito bem recebido e convidado a posar aquela noite na própria sede do ponto. Enfim pude ter o merecido descanso depois de um dia no qual rodei cem quilômetros de bicicleta e enfrentei mais três horas de barco.

No outro dia, acordei atrasado. Acredito que por causa do intenso exercício do dia anterior. Arrumei minhas coisas e fui direto ao porto para tentar um transporte a Superagui, de onde seguiria minha viagem pedalando. No caminho, encontrei seu Leonildo ao qual entreguei a chave do ponto de cultura e pedi para que entregasse ao José Muniz. Ao chegar no porto, não encontrei nenhum barco indo até o Superagui. Pensei comigo mesmo que minha viagem tinha dado errado naquela hora. Coincidentemente, seu Leonildo na hora que o encontrei, também estava indo até o porto. Desolado, comuniquei que a sequencia de minha viagem estava prejudicada. Ele tentou me ajudar perguntando a outros barqueiros sobre a possibilidade de alguém estar indo para onde eu gostaria de ir sem sucesso. Foi quando ele me ofereceu uma carona até Tibicanga, uma comunidade no meio do caminho até Superagui. Falou que lá poderia ter a possibilidade de alguém me levar até lá. Contudo, a viagem de lá em barco fretado não sairia por menos de 60 reais. Naquela hora eu só tinha 50 reais no bolso. Estava disposto a ir mesmo assim e tentar a sorte, mesmo que ficasse literalmente ilhado por lá. Foi quando ele me deu outra sugestão: “vamo até o abacateiro onde eu moro e de lá você pode pegá outro barco até Ariri que leva mais ou menos hora e meia”. Agarrei a possibilidade na hora, não porque representava uma oportunidade de continuar minha viagem, mas simplesmente porque era Leonildo Pereira que me convidava. Pensei comigo, “na pior das hipóteses, no mínimo vou conhecer a casa do lendário membro da família Pereira, exímio construtor de rabecas e violas e o tocador de bailes de fandango mais famoso da região do litoral do Paraná” (que inclusive nessa mesma semana participou de uma mesa de debates junto com Ariano Suassuna no Festival Internacional de Cultura Popular, Vozes de Mestre).

E foi assim, viajei com minha bicicleta numa canoa de um pau só, fabricada pelo próprio sobrinho de Leonildo, o Elizeu, que nos levou até a comunidade do Abacateiro. Chegando lá, conheci a casa de seu Leonildo e toda sua família que contaram causos boa parte da noite. Senti-me tão a vontade e seu Leonildo fez questão para que isso acontecesse. Tão a vontade, que mesmo eu sendo o ser mais estranho daquele lugar, fui tratado como uma pessoa comum e pude compartilhar aquele momento completamente. No outro dia tínha que acordar cedo para esperar que um barco passasse na frente da casa de seu Leonildo e que me levasse até o Ariri (primeira comunidade depois do Abacateiro e já do lado paulista). Mas o enxame de mosquitos fez o favor de nos acordar bem cedo, ou melhor, de nem nos deixar dormir. Era noite de lua cheia, e isso contribuiu para que os bichinhos ficassem muito mais numerosos e muito mais insistentes. Nem os três fumerígenos que acendi ao mesmo tempo para espantá-los resolveu alguma coisa.

No outro dia, de pé às 4h30 da madrugada, levantei para esperar que algum barco passasse na frente da casa de seu

Bahia de Guaraqueçaba e, ao fundo, o Morro do Bico Torto, ponto mais alto da região

Bahia de Guaraqueçaba e, ao fundo, o Morro do Bico Torto, ponto mais alto da região

Leonildo sentido São Paulo. Na verdade nem tinha muitas esperanças. Como tinha pouco tempo para a viagem, tinha que estar em Curitiba naquele mesmo dia para dar conta de minhas responsabilidade para com o Festival de Cultura, resolvi voltar para Guaraqueçaba com o próprio Elizeu. Saímos às 7h30 para mais 2 horas e meia de viagem. Cheguei junto com a balsa que ia até Paranaguá e não pensei duas vezes em embarcar. Chegando lá, minha única alternativa seria conseguir uma carona no trem que saía de morretes às três da tarde,  sendo que estava em Paranaguá às 12h30 e são 35 quilômetros até Morretes. Foi uma das pedaladas mais fortes que já dei, sob muito sol e sem almoçar. Que desafio. Melhor ainda foi chegar lá faltando 5 minutos para o trem sair, embacar e dar tudo certo! Ainda pude curtir a volta para casa contemplando paisagens lindas que só o trecho da serra do mar do Paraná por trem pode reservar.

Enfim, de volta ao lar, tive a certeza de ter encontrado pessoas especiais no caminho que fizeram essa viagem dar muito certo e que fizeram deste desafio um encontro de culturas e modos de perceber e entender o mundo pelo menos um pouco mais comum. Que a diversidade construída nessas relações possa ser uma pequena constribuição para que as pessoas se humanizem percebendo na diversidade o fator mais importante para construção da vida na Terra.

Galeria de fotos:

Participe e mobilize para o Festival de Cultura do Paraná.

10 Comments

  1. Uhu, Amarelo! obrigada por compartilhar essa VIVÊNCIA sua tão rica. Nos detalhes das sensações do corpo, das “vistas”, das visitas e pessoas e encontros. Pelas conexões com outras atividades no Brasil, por esse intenso e generoso panorama! darwin te guie. beijo, marila velloso

  2. — eduardo #

    Que demais, meu.

  3. — Diego Canhada #

    Amarelo,

    Parabéns pela coragem, esforço, pelo belo texto e belíssimas fotos! Que garra heim!!!

    Abração,
    Diego

  4. Érico #

    Viva a mobilidade da bicicleta e a cultura popular!

  5. — Denise Matoso #

    Olá, Amarelo. è muito bonito poder ler um texto que demonstra que ainda podemos encontrar pessoas com disposição e paixão para vivenciar as coisas boas da vida, apesar de não serem fáceis. Beijo Denise

  6. — decko #

    Ahhhhh muleque!!! Pena não ter passado por Pontal do Sul. Se bobeasse, ia encontrar mais uns parceiros pra fazer a viagem também.
    Aquele abraço!

  7. — AndreLobato (boca) #

    Muito massa Amarelo, parabéns!

  8. — Leo #

    Quando eu crescer que fazer igual!
    Parabens meu jovem!

  9. Muito bom Amarelo, demais mesmo!

  10. — karen k #

    pc… so vc mesmo! coisa d´loko… adorei seu passeio…

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